GPAI (general-purpose AI) é o nome inglês dos modelos de IA de finalidade geral, como os grandes modelos de linguagem por detrás do ChatGPT, do Gemini ou do Claude. No AI Act, quem os desenvolve e coloca no mercado tem obrigações desde 2 de agosto de 2025. A maioria das empresas portuguesas apenas os utiliza e responde por outras regras.
Pontos-chave
- O regulamento distingue o modelo de IA de finalidade geral (o «motor») do sistema de IA de finalidade geral (o produto construído sobre ele).
- Todos os prestadores de modelos GPAI têm de manter documentação técnica, informar os prestadores a jusante, ter uma política de direitos de autor e publicar um resumo dos dados de treino (artigo 53.º).
- Modelos treinados com mais de 10^25 operações de vírgula flutuante presumem-se de risco sistémico e têm deveres adicionais (artigo 55.º).
- O Código de Práticas para GPAI, publicado a 10 de julho de 2025, é voluntário e foi assinado pela maioria dos grandes fornecedores.
- Quem usa um modelo através de uma API ou de um assistente é, em regra, responsável pela implantação, não prestador de GPAI.
Modelo GPAI ou sistema de IA: a distinção que confunde toda a gente
O artigo 3.º, ponto 63, do Regulamento da IA define o modelo de IA de finalidade geral como um modelo treinado com grandes quantidades de dados, normalmente com autossupervisão em escala, que apresenta uma generalidade significativa e é capaz de executar com competência uma vasta gama de tarefas distintas, podendo ser integrado em vários sistemas a jusante. O ponto 66 define o sistema de IA de finalidade geral: um sistema baseado nesse modelo que pode servir vários fins, diretamente ou integrado noutros sistemas.
Em linguagem corrente: o modelo de linguagem é o motor; a aplicação de conversação, com a sua interface, filtros e integrações, é o sistema. O capítulo V do regulamento (artigos 51.º a 56.º) trata dos modelos. Os sistemas seguem as regras gerais: nível de risco e, quando interagem com pessoas ou geram conteúdo, as obrigações de transparência do artigo 50.º. O enquadramento global está no guia do AI Act em português.
As orientações da Comissão propõem um indicador: um modelo treinado com mais de 10^23 operações de vírgula flutuante (FLOP) que gera linguagem, texto para imagem ou texto para vídeo é provavelmente um modelo de finalidade geral. É um filtro inicial, não uma linha absoluta; o decisivo é a generalidade do modelo.
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Obrigações de todos os prestadores de GPAI (artigo 53.º)
| Obrigação | O que significa na prática | Isenção para modelos de código aberto? |
|---|---|---|
| Documentação técnica (anexo XI) | Processo de treino e teste, resultados de avaliação, arquitetura, capacidade de computação e consumo energético, atualizados e disponíveis ao Serviço para a IA e às autoridades | Sim, salvo risco sistémico |
| Informação aos prestadores a jusante (anexo XII) | Informação sobre capacidades e limitações suficiente para quem integra o modelo cumprir as suas próprias obrigações | Sim, salvo risco sistémico |
| Política de direitos de autor | Cumprir o direito de autor da UE, incluindo respeitar a reserva de direitos à prospeção de textos e dados (Diretiva (UE) 2019/790) | Não |
| Resumo público dos dados de treino | Resumo suficientemente pormenorizado, segundo o modelo publicado pela Comissão a 24 de julho de 2025 | Não |
A isenção para código aberto cobre modelos disponibilizados com licença livre e aberta, com pesos, arquitetura e informação de utilização públicos. Prestadores estabelecidos fora da UE têm de nomear um mandatário na União antes de colocarem o modelo no mercado europeu (artigo 54.º). O texto oficial está no Regulamento (UE) 2024/1689 no EUR-Lex.
Risco sistémico: o limiar de 10^25 FLOP e o artigo 55.º
Um modelo GPAI tem risco sistémico quando tem capacidades de elevado impacto. Segundo o artigo 51.º, presume-se que as tem quando a computação acumulada usada no treino ultrapassa 10^25 FLOP. A Comissão pode ainda designar um modelo com base noutros critérios do anexo XIII, como o número de utilizadores. O prestador tem duas semanas para notificar a Comissão (artigo 52.º) e pode argumentar que, apesar da computação, o modelo não apresenta risco sistémico.
Além do artigo 53.º, os prestadores de modelos com risco sistémico têm de:
- avaliar o modelo com protocolos normalizados e ferramentas de ponta, incluindo testes adversariais;
- avaliar e mitigar possíveis riscos sistémicos a nível da União;
- acompanhar, documentar e comunicar incidentes graves e medidas corretivas ao Serviço para a IA;
- garantir um nível adequado de cibersegurança do modelo e da infraestrutura física.
O Código de Práticas para GPAI
O artigo 56.º prevê códigos de práticas que servem para demonstrar o cumprimento enquanto não existirem normas harmonizadas. O Código de Práticas para a IA de finalidade geral foi publicado a 10 de julho de 2025 e tem três capítulos: transparência (com um formulário de documentação do modelo), direitos de autor e segurança (este último só para modelos com risco sistémico).
À data de outubro de 2026, a lista de signatários da Comissão inclui, entre outros, Amazon, Anthropic, Google, IBM, Microsoft, Mistral AI e OpenAI. A xAI assinou apenas o capítulo de segurança e a Meta recusou assinar em julho de 2025. A assinatura é voluntária: os signatários usam o código como prova de conformidade, os restantes têm de demonstrar o cumprimento por outros meios. A lista é atualizada continuamente, por isso confirme-a na página da Comissão sobre o Código de Práticas.
Datas-chave dos modelos GPAI
| Data | Marco |
|---|---|
| 10 de julho de 2025 | Publicação do Código de Práticas |
| 18 de julho de 2025 | Orientações da Comissão sobre o âmbito das obrigações dos modelos GPAI |
| 24 de julho de 2025 | Modelo para o resumo público dos dados de treino |
| 2 de agosto de 2025 | Aplicação dos artigos 53.º a 55.º a modelos colocados no mercado a partir desta data |
| 2 de agosto de 2026 | A Comissão pode aplicar coimas aos prestadores de GPAI |
| 2 de agosto de 2027 | Prazo para modelos colocados no mercado antes de 2 de agosto de 2025 |
Como estas datas se articulam com o risco elevado e a transparência está no calendário do AI Act.
Quem fiscaliza: o Serviço para a IA, não a ANACOM
Os prestadores de modelos GPAI são supervisionados pela Comissão, através do Serviço para a IA (AI Office), e não pelas autoridades nacionais. Ao abrigo dos artigos 91.º a 94.º, a Comissão pode pedir documentação, avaliar um modelo (inclusive com peritos independentes) e exigir medidas de mitigação, restrição ou retirada. O artigo 101.º permite coimas até 15 milhões de euros ou 3 % do volume de negócios anual mundial, consoante o valor mais elevado, desde 2 de agosto de 2026.
O Omnibus Digital alargou esse papel: o Serviço para a IA supervisiona agora em exclusivo os sistemas construídos sobre um modelo GPAI quando o modelo e o sistema são do mesmo prestador ou grupo. Uma aplicação de conversação e o modelo que a alimenta, da mesma empresa, respondem a um único supervisor. Os pormenores estão no artigo sobre o Omnibus Digital e o AI Act. A ANACOM, anunciada como autoridade de fiscalização do mercado em Portugal, tratará dos sistemas usados e colocados no mercado nacional, não dos grandes modelos.
E os modelos desenvolvidos em Portugal?
A questão deixou de ser teórica. O AMALIA, um modelo de linguagem de grande escala aberto desenvolvido por um consórcio de universidades públicas portuguesas, com coordenação da FCT e da ARTE, teve a primeira versão pública em julho de 2026, segundo a Resolução do Conselho de Ministros n.º 178/2026. Qualquer entidade que desenvolva e disponibilize um modelo deste tipo tem de avaliar se se trata de um modelo de IA de finalidade geral, se beneficia da isenção para código aberto e que documentação deve manter. Não fazemos aqui essa qualificação; o ponto é que as regras do capítulo V também se aplicam a prestadores europeus e públicos, não apenas aos gigantes norte-americanos.
O que significa para quem só usa ChatGPT, Copilot, Claude ou Gemini
A maioria das organizações não treina modelos de base. Se chama um modelo por API ou usa o assistente de um fornecedor, as obrigações do capítulo V ficam com o prestador do modelo. A sua posição é, normalmente, uma destas:
- Responsável pela implantação de um sistema de IA. Tem de tomar medidas de literacia para o pessoal e, se o caso de uso for de risco elevado (por exemplo, triagem de currículos), cumprir o artigo 26.º.
- Prestador do seu próprio sistema. Se construir um chatbot de apoio ao cliente sobre um modelo GPAI e o oferecer com a sua marca, é prestador desse sistema, e o artigo 50.º, n.º 1, obriga-o a dizer aos utilizadores que estão a falar com uma IA.
- Prestador de um modelo modificado, raramente. As orientações da Comissão indicam que só se presume quando a modificação usa mais de um terço da computação de treino original, o que o ajuste fino corrente está longe de atingir.
O que fazer: peça ao fornecedor do modelo a informação do anexo XII e a posição face ao Código de Práticas; registe cada utilização no inventário de IA; defina que dados o pessoal pode enviar ao modelo; e verifique as implicações de RGPD de prompts com dados pessoais. O guia sobre shadow AI e inventário de IA explica como apanhar as utilizações que ninguém comunicou. A avaliação gratuita de governação de IA da Opsio faz exatamente estas perguntas e transforma as respostas numa checklist de fornecedores e numa política de utilização.
Perguntas frequentes
O que é GPAI no AI Act?
GPAI significa «general-purpose AI». No texto português do regulamento, chama-se modelo de IA de finalidade geral: um modelo treinado com grandes volumes de dados, com generalidade significativa, capaz de executar muitas tarefas distintas e de ser integrado em vários sistemas. Os grandes modelos de linguagem e os modelos de geração de imagem são os exemplos típicos.
O que é o Código de Práticas para GPAI?
É um código voluntário, publicado a 10 de julho de 2025, que ajuda os prestadores de modelos a cumprir os artigos 53.º e 55.º. Tem capítulos sobre transparência, direitos de autor e segurança. A maioria dos grandes prestadores assinou-o; quem não assina tem de provar o cumprimento de outra forma e pode esperar mais pedidos de informação.
A minha empresa usa o ChatGPT. Tem de cumprir as regras GPAI?
Em regra, não. As obrigações GPAI recaem sobre quem desenvolve o modelo e o coloca no mercado. Uma empresa que usa o ChatGPT, o Claude ou o Gemini é normalmente responsável pela implantação e tem deveres de literacia, de transparência se criar um chatbot ou gerador para terceiros e de risco elevado se o caso de uso o for.
Que coimas se aplicam aos prestadores de GPAI?
O artigo 101.º permite à Comissão aplicar coimas até 15 milhões de euros ou 3 % do volume de negócios anual total a nível mundial, consoante o que for mais elevado. Podem resultar, por exemplo, de não fornecer documentação pedida ou de não cumprir medidas exigidas. Estes poderes aplicam-se desde 2 de agosto de 2026.
Saiba qual é o seu papel quando usa modelos de terceiros
Se a sua IA assenta no modelo de outra empresa, as suas obrigações dependem da forma como o utiliza. Em cerca de 40 minutos e 14 passos, a avaliação de governança e maturidade em IA da Opsio pergunta-lhe que modelos e fornecedores usa e com que dados. Ao submeter, redige quatro documentos: checklist de diligência devida para fornecedores de IA, política de utilização de IA, quadro de governança e modelo de avaliação de riscos, com um retrato de maturidade em dez áreas. As perguntas estão em português; os documentos são entregues em inglês, em Word editável. Gratuito e sem compromisso.
Este artigo é informação geral e não constitui aconselhamento jurídico. Confirme o texto consolidado do Regulamento (UE) 2024/1689, na redação dada pelo Regulamento (UE) 2026/1744, e a lista atual de signatários do Código de Práticas. Situação à data de outubro de 2026.
Escrito por

Country Manager, Índia
Praveena lidera as operações da Opsio na Índia, trazendo mais de 17 anos de experiência intersectorial em IA, fabrico, DevOps e serviços geridos.
Normas editoriais: Este artigo foi escrito por profissionais cloud e revisto pela nossa equipa de engenharia. Atualizamo-lo quando a tecnologia ou a regulamentação que aborda muda; as datas desta página indicam a última atualização. A Opsio mantém independência editorial.